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Era mais uma daquelas festas de fim-de-ano. Helô era uma das chefes mais odiadas na repartição. Ela se defendia dizendo que não guardava para depois, o que tinha para falar, falava, não media expressões, não poupava corações. Era uma verdadeira diaba. Ofendeu a zeladora porque percebeu pó sobre as mesas, ofendeu o técnico de informática porque abriu um email particular, delatou a secretaria porque ela saiu mais cedo para levar sua filha no médio, ameaçou o office boy caso ele não levasse um documento em tal lugar dentro de um prazo humanamente impossível. Mergulhada em seu próprio orgulho, Helô não percebia o olho ruim que todo mundo lançava sobre ela. Mas ela estava na festa e, na surdina, muitos prometeram se vingar. Uma brincadeira foi criada, era um karaokê. Helô tinha pavor disso, não porque achasse sua voz esganiçada ou a falta de sincronia entre sua voz e a melodia. Ela tinha pavor de julgamento, embora fosse dura, crica, brava, Helô não gostava de exibir, de se mostrar frágil para ninguém. Foi aí que a chamaram, seu nome havia sido sorteado e ele, como castigo, como mico, deveria cantar uma música. Os pedidos foram tantos, os clamores, que ela não teve como resistir, levantou e dirigiu-se até o palco improvisado. Seu olho era outro, menor, mais brilhante, estava decididamente muito assustada. Começou a cantar, não houve muito tempo, a platéia estava silenciosa, julgando, mas não ela cantando, apenas ela, Helô. Começou silenciosamente, uma vaia fina, aos poucos ela foi crescendo, se estendendo, tomando conta do lugar. Helô seguro uma nota entre os dentes, engoliu o susto como se estivesse digerendo um enorme pedaço de cacto. Muda, desceu do cenário e lentamente saiu de cena. Na mesma noite, ela tomou dois vidros de diazepan, foi encontrada morta, em adiantando estado de putrefação duas semanas depois...

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