Era mais uma daquelas festas de fim-de-ano. Helô era uma das chefes mais odiadas na repartição. Ela se defendia dizendo que não guardava para depois, o que tinha para falar, falava, não media expressões, não poupava corações. Era uma verdadeira diaba. Ofendeu a zeladora porque percebeu pó sobre as mesas, ofendeu o técnico de informática porque abriu um email particular, delatou a secretaria porque ela saiu mais cedo para levar sua filha no médio, ameaçou o office boy caso ele não levasse um documento em tal lugar dentro de um prazo humanamente impossível. Mergulhada em seu próprio orgulho, Helô não percebia o olho ruim que todo mundo lançava sobre ela. Mas ela estava na festa e, na surdina, muitos prometeram se vingar. Uma brincadeira foi criada, era um karaokê. Helô tinha pavor disso, não porque achasse sua voz esganiçada ou a falta de sincronia entre sua voz e a melodia. Ela tinha pavor de julgamento, embora fosse dura, crica, brava, Helô não gostava de exibir, de se mostrar frágil p...
um olhar minúsculo sobre a grandeza e complexidade da vida