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Postagens

Mostrando postagens de 2008
Era mais uma daquelas festas de fim-de-ano. Helô era uma das chefes mais odiadas na repartição. Ela se defendia dizendo que não guardava para depois, o que tinha para falar, falava, não media expressões, não poupava corações. Era uma verdadeira diaba. Ofendeu a zeladora porque percebeu pó sobre as mesas, ofendeu o técnico de informática porque abriu um email particular, delatou a secretaria porque ela saiu mais cedo para levar sua filha no médio, ameaçou o office boy caso ele não levasse um documento em tal lugar dentro de um prazo humanamente impossível. Mergulhada em seu próprio orgulho, Helô não percebia o olho ruim que todo mundo lançava sobre ela. Mas ela estava na festa e, na surdina, muitos prometeram se vingar. Uma brincadeira foi criada, era um karaokê. Helô tinha pavor disso, não porque achasse sua voz esganiçada ou a falta de sincronia entre sua voz e a melodia. Ela tinha pavor de julgamento, embora fosse dura, crica, brava, Helô não gostava de exibir, de se mostrar frágil p...

o drama da lagarta

há pelo menos um mês acompanhamos aqui em casa um drama, uma verdadeira novela do reino animal, com direito a reviravoltas e tudo, cujo final, por incrivel que pareça, ainda pode surpreender. Trata-se de uma lagarta, peluda, repulsiva como toda a lagarta costuma ser. Bicho intratável, intocável (lembra que ela queima), Primeiro se encontrava toda perigosa sobre o teto da minha garagem, não representava risco, estava alta, mas mesmo assim, a bichinha impunha sua autoridade, não me toque, senão eu toco foco. Um dia ela parou, bem na soleira na porta, congelada, dura, parecia petrificada. Aos poucos foi pendendo para baixo, perdeu sua cor escura, como se o negro fosse desbotando, como se, todo aquele fogo escondido dentro dela ficasse silencioso. Ao passo que, sua pele foi ficando cinza, um cinza de estátua mesmo. A lagarta estava aprendendo sua própria transformação. Depois disso, ela ficou pendurada, bem no centro da minha porta. e aquilo que era motivo de medo e repulsa, tornou-se noss...

o homem do amanhã

"Amanhã eu começo tudo de novo." Essa é a frase preferida de Pedro. Tudo ele deixava para amanhã. Fumava e decidiu que "amanhã eu largo desse vício". Engordou também e enquando comia um brigadeiro de panela, pensava "amanhã eu paro de comer doce". Aquele livro sobre a cabeceira da cama, já estava até com teia de aranha, "amanhã eu retomo a leitura". E aquela moça que sempre dava-lhe a maior moral, "amanhã eu falo com ela". Um dia, pela manhã, encontraram Pedro morto, o cadáver já estava em rigor mortis . Os legistas dizeram que ele havia morrido durante a noite, vitimado por um fulminante ataque cardíaco. Pedro não viu o amanhã que tanto esperava.